Toda consignadora já viveu os dois lados desse erro.
Deixou pouco, e a revendedora ficou sem a peça no dia em que a cliente queria comprar. Deixou muito, e três meses depois estava com metade do capital dormindo numa maleta em outra cidade, sem giro e sem previsão de voltar.
A pergunta "quanto estoque deixar com cada revendedora" costuma ser respondida por intuição, por simpatia ou por quanto sobrou no estoque naquela semana. Existe um jeito melhor, e ele cabe numa conta de três linhas.
O número que importa é cobertura, não quantidade
Pare de pensar em "quantas peças" e comece a pensar em "quantos dias de venda".
Se uma revendedora vende, em média, 8 peças por semana, uma maleta de 24 peças é cobertura de 3 semanas. Uma de 60 peças é cobertura de quase 2 meses. O primeiro número é saudável. O segundo é capital parado com cara de confiança.
A faixa que funciona na maior parte das operações de consignação é cobertura de 30 a 45 dias. Menos que isso, você vive repondo e perde venda por ruptura. Mais que isso, você financia estoque parado e ainda aumenta o risco de perda e avaria.
A conta
```
Volume ideal = venda média semanal x (cobertura desejada em dias ÷ 7)
```
Exemplos:
- Revendedora vende 8 peças por semana, cobertura de 35 dias: 8 x 5 = 40 peças.
- Revendedora vende 3 peças por semana, cobertura de 35 dias: 3 x 5 = 15 peças.
- Revendedora vende 20 peças por semana, cobertura de 30 dias: 20 x 4,3 = 86 peças.
Simples assim. E note o que a conta faz: ela transforma uma decisão emocional em uma consequência do desempenho. Ninguém precisa discutir se merece mais estoque. O histórico responde.
Quanto estoque deixar com cada revendedora que ainda não tem histórico
Revendedora nova não tem venda média. Aqui o critério muda de peças para valor.
Defina um teto inicial em valor de custo que você aceita ter na rua sem sentir. Para a maioria das operações, algo entre 15% e 25% do que você já consigna para uma revendedora média é um ponto de partida razoável.
E monte esse primeiro lote com uma regra que vale ouro: variedade acima de profundidade. Doze modelos diferentes ensinam mais sobre o mercado dela do que quatro modelos com três unidades cada. Nas primeiras semanas, você não está vendendo, está descobrindo o que aquela região compra.
Depois de 30 a 45 dias você já tem venda média real e passa a usar a conta de cobertura.
Se você quer ver a venda média, o giro e a cobertura de cada revendedora sem montar planilha, o EasySale calcula isso a partir do que já acontece na sua operação. Conheça em easysale.io.
Os três sinais de que a maleta está grande demais
Não precisa esperar o inventário anual para perceber. Três indicadores aparecem antes.
1. Percentual de peças paradas há mais de 60 dias. Se mais de 30% do lote está parado há dois meses, o volume está acima da capacidade de venda dela. Não é falta de esforço, é excesso de mostruário.
2. Ticket do acerto caindo com estoque subindo. Se ela devolve cada vez mais e vende o mesmo, o estoque extra não virou venda. Virou peso.
3. Ela para de pedir reposição. Revendedora com maleta cheia não pede novidade, e novidade é o que traz a cliente antiga de volta. Maleta grande demais tira o combustível do próprio giro.
E quando aumentar
O gatilho de aumento também deve ser objetivo, e não pedido no WhatsApp.
Aumente quando os três acontecerem juntos:
- Acerto em dia nos dois últimos ciclos.
- Cobertura caindo abaixo de 20 dias, ou seja, ela está vendendo mais rápido do que você repõe.
- Menos de 20% do lote parado há mais de 60 dias.
Quando o critério é público e igual para todas, aumento de maleta deixa de ser favor e vira consequência. Isso muda a relação: as revendedoras passam a competir com o próprio desempenho, não com a sua atenção.
Rodízio antes de compra nova
Um detalhe que gera caixa sem gastar nada: antes de comprar novidade do fornecedor, gire o mostruário parado entre revendedoras.
Peça que não vende em uma região frequentemente vende em outra. Estilo, faixa de preço e perfil de cliente mudam de bairro para bairro. Uma rodada de troca a cada 60 ou 90 dias costuma render mais que uma compra nova, e não consome capital.
Para isso funcionar, você só precisa de uma informação: há quantos dias cada peça está parada e com quem. Sem isso, o rodízio vira palpite.
Perguntas frequentes (FAQ)
Quanto estoque deixar com cada revendedora no começo?
Sem histórico, trabalhe com um teto em valor de custo, não em quantidade de peças, e priorize variedade sobre profundidade. Depois de 30 a 45 dias, você já tem venda média real e pode usar a conta de cobertura para ajustar.
Qual a cobertura ideal de estoque consignado?
Entre 30 e 45 dias de venda média funciona bem na maior parte das operações. Abaixo disso você perde venda por falta de produto. Acima, você imobiliza capital e aumenta o risco de perda, avaria e peça encalhada.
Como saber se a revendedora está com estoque demais?
Olhe o percentual de peças paradas há mais de 60 dias. Acima de 30% do lote, o volume está acima da capacidade de venda dela. Outro sinal claro é ela parar de pedir reposição, porque a maleta cheia elimina o espaço para novidade.
Devo dar mais estoque para quem vende mais?
Sim, mas com critério publicado e igual para todas: acerto em dia, cobertura caindo e baixo percentual de peça parada. Aumento por simpatia gera ressentimento no grupo. Aumento por indicador gera disputa saudável.
O que fazer com a peça que não gira em lugar nenhum?
Depois de duas tentativas em regiões diferentes, trate como estoque de outlet: kit, campanha ou desconto direto. Peça parada não melhora com tempo. Ela só ocupa lugar de algo que venderia.
O resumo
Consignação não é generosidade, é alocação de capital. Cada peça que você deixa na rua é dinheiro que escolheu um endereço. A pergunta certa não é quanto cabe na maleta. É quantos dias de venda aquele lote representa.