Existem duas formas de errar a compra de estoque, e a maioria das consignadoras alterna entre as duas no mesmo trimestre.
Na primeira, você percebe que o brinco que todas as revendedoras pedem acabou. Faz um pedido de emergência, paga frete expresso, e ainda espera 12 dias porque o fornecedor não tinha o modelo pronto. Nesses 12 dias, oito revendedoras pediram a peça e não receberam.
Na segunda, escaldada pela primeira, você compra muito. Fecha um lote grande numa condição boa, e três meses depois tem 140 peças de um modelo que ninguém pediu e R$ 9 mil parados numa gaveta.
O pedido de reposição de semijoias é decidido no susto porque falta uma coisa muito simples: um número que diz quando comprar. Não é intuição. É conta.
Por que o pedido de reposição de semijoias não é reposição de maleta
Vale separar isso antes de qualquer conta, porque a confusão entre as duas é o que faz o controle desandar.
Reposição de maleta é o que você manda para a revendedora, do seu estoque físico para o estoque dela. É movimentação interna: a peça sai de um lugar e entra em outro, e continua sendo sua.
Pedido ao fornecedor é dinheiro saindo. É compra, tem prazo de entrega, tem lote mínimo, e depende de um terceiro cumprir data. São dois problemas diferentes, com riscos diferentes, e quem trata os dois na mesma planilha erra os dois.
Como calcular o ponto de pedido de semijoias
Ponto de pedido é o nível de estoque em que você precisa comprar de novo para não faltar. Ele depende de três números que você já tem, mesmo que nunca tenha olhado juntos.
1. Venda média por dia daquela peça. Se um modelo de argola saiu 60 vezes em 90 dias, é 0,67 peça por dia.
2. Prazo real do fornecedor, em dias. Não o prometido, o real. Se as últimas três compras levaram 9, 14 e 11 dias, use 14. O maior, não a média.
3. Uma margem de segurança. Trinta por cento do prazo basta na maioria das operações de semijoias.
A conta:
Ponto de pedido = venda por dia x prazo do fornecedor x 1,3
No exemplo: 0,67 x 14 x 1,3 = 12 peças. Quando o estoque físico daquela argola chegar a 12 unidades, o pedido precisa sair. Não quando chegar a zero.
Repare: as peças que estão nas maletas não contam como estoque disponível. Já estão comprometidas. O número que dispara o pedido é o que sobrou com você.
O que fazer quando o lote mínimo não bate com o ponto de pedido
Aqui está o conflito real do dia a dia. Sua conta diz para comprar 12 peças. O fornecedor só vende a partir de 50 do mesmo modelo, ou a partir de um valor mínimo por pedido.
Três saídas, em ordem de preferência:
- Agrupe modelos no mesmo pedido. O lote mínimo costuma ser por pedido ou por valor, não por referência. Junte as cinco peças que chegaram ao ponto de pedido na mesma semana e feche um pedido só. Isso também dilui o frete.
- Calcule quantos dias de cobertura o lote mínimo representa. Cinquenta argolas com venda de 0,67 por dia são 75 dias de estoque. Se a peça é linha fixa, 75 dias é aceitável. Se é peça de coleção que vai sair de moda em 60 dias, não é.
- Negocie prazo, não desconto. Um fornecedor que entrega em 7 dias em vez de 14 corta o seu ponto de pedido pela metade, o que significa metade do caixa parado em estoque de segurança. Isso vale mais que 5% de desconto em quase todos os cenários.
Linha fixa e coleção pedem regras diferentes
Linha fixa é a peça que vende todo mês, todo ano, independente de tendência. Argola lisa, corrente básica, ponto de luz. É o que sustenta o faturamento e é a única categoria em que ruptura é imperdoável, porque a demanda existe e você simplesmente não tem o que vender.
Coleção é peça de tendência. Vende forte por dois ou três meses e depois perde ritmo. Ali o ponto de pedido praticamente não se aplica: você compra uma vez, observa a resposta em 30 dias e decide se repõe. Se não vendeu 40% do lote nesse prazo, não reponha.
Regra prática: linha fixa nunca deve ficar sem estoque de segurança, e coleção nunca deve ter. Tratar as duas igual é o que faz a gaveta encher de peça morta e faltar argola.
O que a falta custa, em dinheiro
Consignadoras raramente medem ruptura porque a venda que não aconteceu não aparece em relatório nenhum. Mas ela dá para estimar.
Imagine 15 revendedoras ativas. Duas peças de linha fixa ficam em falta por 10 dias. Cada revendedora deixa de vender, digamos, 1,5 dessas peças no período, com preço médio de R$ 95 e sua margem de R$ 38 por peça.
Quinze revendedoras x 1,5 peça x 2 modelos x R$ 38 = R$ 1.710 de margem que não entrou, em dez dias.
Custa mais que o frete expresso que você economizou por não ter comprado antes. E custa mais que isso na confiança, porque revendedora que pede e não recebe duas vezes começa a procurar outro fornecedor.
Para saber a hora certa de comprar, você precisa ver o que é seu, o que está em maleta e o que já vendeu, tudo no mesmo lugar. O EasySale separa estoque físico de estoque consignado e mostra o giro real de cada peça, para o seu pedido sair no dia certo e no volume certo.
Perguntas frequentes (FAQ)
Qual é o estoque ideal de semijoias para uma consignadora?
Não existe número absoluto, existe cobertura. Calcule quantos dias de venda o seu estoque físico representa por modelo. Linha fixa saudável fica entre 30 e 60 dias de cobertura com você, fora o que está nas maletas. Abaixo de 20 dias você vive no susto. Acima de 90, tem caixa parado.
Devo contar as peças que estão com as revendedoras no meu estoque?
Contar sim, como estoque consignado, porque a peça continua sendo sua e precisa ser rastreável. Mas nunca somar esse volume ao estoque disponível para novos envios, porque ele já está comprometido. Somar os dois é o erro que gera promessa de reposição impossível de cumprir.
O que fazer com a peça que não vendeu no lote de coleção?
Decida em 30 dias, não em seis meses. Se vendeu menos de 40% do lote, tire da linha de reposição e trabalhe a saída: kit com peça que gira, desconto controlado numa data sazonal, ou destaque no catálogo. Peça de coleção parada perde valor todo mês que passa.
Vale comprar mais para pegar desconto por volume?
Só se a peça for linha fixa e o desconto for maior que o custo de manter aquele estoque parado. Se o lote passar de 90 dias de cobertura em peça de tendência, o desconto virou prejuízo com nome bonito.
Comprar bem não é comprar barato. É comprar no dia certo o que já provou que vende.